Por Lindomar Araujo

JUSTIFICATIVA

Trabalhar numa escola de tempo integral exige de todos do/no cotidiano escolar diferentes e novas formas de aprender e ensinar. Especificamente no Ginásio Carioca, alunos e professores convivem sete horas diariamente, com o maior comprometimento de todos os adultos na formação global de cada aluno. No plano de ação do Ginásio Carioca Vicente Licínio Cardoso, dedicamos carga horária ampliada ao ensino da Arte, na sua matriz diversificada, com a formulação de Ateliês específicos, em forma de disciplina eletiva. Nesse espaçotempo de aprendizagem, a cada semestre, o aluno escolhe o ambiente, a linguagem e o professor para “trabalhar”. Esse é um diferencial qualitativo que implementamos na aprendizagem dos alunos, por ser a linguagem da Arte uma forma de imaginar, (re)criar e transformar mundos.

No Ateliê de Mídias, ministrado pelo professor Lindomar Araujo, o aluno é direcionado a desenvolver habilidades e competências por meio de uma prática pedagógica denominada “educação para as mídias”. De acordo com BELLONI, a educação para as mídias objetiva formar um usuário ativo, crítico e criativo, pois “é condição sine qua non da educação para a cidadania.” Educar para as mídias é levar o aluno a aprender fazendo mídia, dominando sua arquitetura e estética.

Nesse ateliê, trabalhamos com múltiplas linguagens artísticas e foco nas tecnologias digitais. Ao explorar a produção de imagens, vídeos e blogs, manipulam-se essas ferramentas de acordo com os projetos estruturados de forma colaborativa, por decisões coletivas, considerando os currículos ocultos dos alunos, e num diálogo direto com os conteúdos específicos das disciplinas Arte e Projeto de Vida.

Neste texto apresentaremos alguns resultados relevantes de projetos realizados no Ateliê de Mídias, relacionados à criação de curtas-metragens, pautados por uma parceria direta com o Museu de Arte do Rio – MAR. Acreditamos que nosso relato possa provocar no leitor novas reflexões e/ou estimular novas ações pedagógicas.

METODOLOGIA

Nossa escola encontra-se na região portuária, e apesar de a maioria dos nossos alunos serem de comunidades carentes, temos fácil acesso a museus e centros culturais. No entanto, tal facilidade não garante, de imediato, a motivação dos alunos em realizar visitas guiadas e exploração de diferentes culturas, tendo em vista a necessidade de conhecer para valorizar. É próprio de um processo educativo apresentar aos estudantes diversas ações culturais que se diferenciem daquelas já praticadas em sua comunidade, e em seu cotidiano, as quais passam a ser vistas como senso comum, inclusive pela influência das mídias comerciais, que incutem nos jovens uma estética de massa. Então, propomos aos alunos novos e diferentes olhares, pelo uso das tecnologias digitais, na produção de imagens e vídeos, de forma crítica e significativa.

O Ateliê de Mídias é formado por alunos dos 7º, 8º e 9º anos, em forma de Eletiva, com a interação de faixas etárias diferentes, objetivando o aprender a conviver na diversidade. Acreditamos em ações de aprenderensinar baseadas nos valores humanos, alinhadas à abordagem triangular de Ana Mae Barbosa.

De acordo com a “abordagem triangular” para o ensino da Arte, proposta por BARBOSA (1999), quando o professor trabalha articulando a Contextualização, o Fazer Artístico e a Apreciação, ele promove uma intensificação da aprendizagem; assim como quando, no espaço dos ateliês, os alunos encontram-se em constante fruição da arte, pela presença de diferentes procedimentos artísticos num mesmo espaço.

Iniciamos, sempre que possível, com um diálogo, para provocar uma ação experimental, que envolva a fotografia, por ser a imagem fixa precursora do cinema. “Vivemos em um mundo saturado de imagens. (…) Diante do papel central da imagem no mundo contemporâneo, refletir sobre usos potentes do audiovisual no contexto escolar é um grande desafio.” (LEBLANC, 2012, p. 38)

Após delimitarmos nosso campo de atuação, ultrapassamos os muros da escola para apreciação e registros com focos definidos. Ao retornarmos, já temos tarefas projetadas em editores de imagem (photoshop). Inicialmente, aprende-se a depurar e manipular imagens, ressignificando-as e produzindo imagens em novo contexto.

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Meu sonho é entrar no maracanã com a minha seleção, jogando a final da copa do mundo. A minha família é que me ajudará a realizar este sonho.

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Meu sonho é ser MC de funk. Tenho força, foco e fé. Só desisto quando consigo. O meu sonho pe tipo um ladrão que me rouba e sai correndo. Então, pulo as barreiras, corro atrás e vou vencendo.

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Meu sonho é conhecer vários pontos turísticos no mundo e eu acredito que vou realizar esse sonho, porque eu vou fazer por onde. Meu pai e minha avó são as pessoas que poderão me ajudar a realizar esse sonho.

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Meu sonho é ter minha esposa, meus queridos filhos e também ter um bom emprego. Eu sei que vou realizar meu sonho, porque sou uma boa pessoa e tenho força de vontade, foco e muita fé.

No momento seguinte, é introduzida a produção de imagens em movimento, em que normalmente trabalhamos com gif animado e/ou pixilation. Somente depois disso partimos para a produção de vídeos, que podem ser videoclipes, curtas-metragens, autorretratos etc.

O trabalho que apresentamos a seguir é sobre a criação de filme na linguagem de animação por pixilation. Consideramos importante citá-lo por ser um exercício anterior à produção de curta-metragem.

O primeiro procedimento foi apresentar um curta-metragem retratando a solidariedade. Após a apreciação do filme, houve uma discussão sobre os valores éticos e estéticos contidos no curta. Outro curta-metragem foi apresentado, mas desta vez na linguagem pixilation, para compreensão da forma desse produto. Depois, foi solicitado que se dividissem em pequenos grupos e elaborassem roteiros a partir de um valor humano. Cada grupo apresentou seu roteiro, e em seguida elaboramos, coletivamente, um roteiro único de todo o grupo do Ateliê, elegendo um dos valores para realizarmos a montagem do filme de animação. Foi escolhido o tema “Amizade”, e o curta-metragem intitulou-se “Amizade Solidária” (Anexo 02), gravado com os alunos em funções diferenciadas. O que fazemos de diferente, em relação à técnica de pixilation, é não trabalhar diretamente com fotografia durante a produção/criação das cenas. Normalmente, gravamos as ações em filme e levamos para o editor de vídeos, por meio do qual o aluno fotografa os frames, como permitem os editores, que deseja inserir no pixilation. Todas as fotos já saem numeradas para a criação do curta.

Amigos Solidários

Após termos compreendido a base de um roteiro e o esquema de gravação, iniciamos a criação de curta-metragem dramatizado ou em documentário. Apresentamos a seguir dois processos de criação que se originaram na parceria, que ainda hoje mantemos, com o Museu de Arte do Rio – MAR, baseados na exposição denominada “Do Valongo à Favela: imaginário e periferia”.

Em dois grupos de Ateliê, o processo de elaboração de roteiro foi bem parecido, com o professor apresentando o fôlder da exposição e abrindo espaço para se dialogar sobre o tema. Assim que as imagens do fôlder foram expostas, todos logo se identificaram e passaram a contar histórias sobre a região portuária, as comunidades em que moram e suas experiências pessoais e locais. Após o diálogo sobre a exposição e os currículos ocultos dos alunos, combinamos de visitar a exposição, mas com um objetivo: “encontrar uma obra que lhe tocasse a alma e que lhe contasse uma história.”

No dia da visita, quando chegamos ao museu MAR, fomos recebidos e guiados pelos monitores; no entanto, todos eram constantemente lembrados da tarefa de observação atenta, para anotar sua obra preferida.

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Após a visita, no Ateliê, realizamos um diálogo, descrevendo as impressões sobre a exposição, apresentando cada um, a obra que teria lhe tocado. Após esse bate-papo, realizamos uma tempestade de ideias, com anotações no quadro branco, para criação de um roteiro básico coletivo, contendo personagens e espaços das obras escolhidas pelos alunos. Um dos grupos do Ateliê escolheu a obra do artista Carlos Vergara (Série Carnaval, 1972 – Metacrilato – 100 x 150 cm), com a imagem de três negros com a palavra poder no peito: o filme se chama “Quase memória: um convite à obra”.

Quase Memória: Um Convite e Obra

O outro grupo elegeu duas obras, sendo uma do artista Caetano Dias (Cabeças, 2007 – Açúcar – 40 x 40 x 40 cm), que é uma cabeça exposta sobre a mesa, e outra do artista André Komatsu (Disseminação concreta, 2006/2014 – Cascalho de escombros do Elevado da Perimetral e peças de roupas – Cópia de exibição), cuja obra denominamos “O homem de pedra”. Este último curta foi denominado “Realidade imaginária”.

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Para gravação do filme, realizamos um cronograma/ planejamento que incluía gravações na rua e no MAR (partes externa e interna do museu). A parceria com o museu facilitou nossa ação, exigindo apenas os agendamentos prévios, de forma que pudéssemos utilizar os materiais de gravação no interior da instituição.

Toda a parte externa, de rua, foi gravada na própria comunidade local, como Morro da Conceição, Mosteiro do São Bento, Praça do Valongo, Praça São Francisco da Prainha, entre outros locais.

A edição dos filmes precisou ser realizada pelo professor, inicialmente, fora da escola , por necessitar de computador adequado e internet de qualidade. Mas cada trecho montado era mostrado aos alunos e discutia-se sobre as possíveis mudanças, acontecendo reedição de um ou outro trecho, para marcar a apropriação da obra com os alunos. Todas as músicas foram baixadas pelos alunos em sites com licença livre (Creative Commons License).

Após a finalização dos filmes, estes foram apresentados aos alunos da escola, postados em nosso blog e nas redes sociais.

Acrescentamos, a essa parceria com o museu MAR, a criação do curta-metragem que o Ateliê de Mídias produziu, de forma interdisciplinar, com a disciplina de Ciências, abordando o tema Mata Atlântica. Esse projeto envolveu a maioria dos alunos da escola e teve sua culminância no auditório do mesmo museu, quando projetamos o filme “Nossa Mata Atlântica” para a comunidade escolar e outros convidados.

Avaliação

Ao desenvolvermos projetos com as TIC no ambiente escolar, potencializamos o trabalho em equipe, gerando relações mais amistosas entre os alunos, pelo envolvimento e compromisso com as ações emergentes do próprio grupo. Muitos alunos descobriram novas habilidades com as tecnologias digitais, fortalecendo a autoestima. Todos os alunos que se envolveram nessas ações passaram de ano e desejaram repetir a Eletiva numa próxima oportunidade. A parceria entre a escola e o museu redimensionou as possibilidades no/do cotidiano escolar, permitindo maior gama de ações pedagógicas que esgarçassem os limites dos muros da escola.

Lindomar da Silva Araujo é professor de Artes Cênicas na Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (SME), vinculado ao Ginásio Experimental de Artes Visuais Vicente Licínio Cardoso. Possui pós-graduações em Tecnologia Educacional e em Psicomotricidade. Graduado com Licenciatura Plena em Dança pela Universidade da Cidade. Produtor de aulas digitais do Portal Educopédia (SME/RJ), de 2010 a 2014. Prática na docência superior em disciplinas articuladas ao segmento da Arte-Educação, na UniBennett. Diretor Geral do Ginásio Experimental Carioca André Urani, em 2012. Professor de Arte da Secretaria Estadual de Educação/RJ (2001-2008), com dedicação ao Núcleo Avançado em Educação – NAVE (2009-2011). Professor de ballet/dança em escolas de dança e artista bailarino na TV Globo e TV Manchete durante 15 anos, atuando, simultaneamente, em palcos nacionais e internacionais.

BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1999. BELLONI, Maria Luiza. O que é mídia-educação? Campinas, SP: Autores Associados, 2005, p.12. LEBLANC, Paola Barreto. (IN) Multirio. A escola entre mídias: linguagens e usos. (Imagem e Educação). Rio de Janeiro: Multirio, 2012.

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